Para um compositor que sempre andou à margem, nada mais adequado que uma homenagem idem. Se o mercado fonográfico anda lotando prateleiras com discos “ao vivo”, levando consumidores à beira do fastio, “O dono das calçadas” é uma obra concebida por quem está acostumado à corda bamba, para quem a honestidade vale ouro.
Este espetáculo, aplaudido no eixo RIO-SP por crítica e público, em 2001, fez do calor do palco laboratório para o decantamento nas salas frias de gravação. O sexteto instrumental Galo Preto, o compositor Nelson Sargento e a cantora Soraya Ravenle trocaram os spots pela negra luz do estúdio, tecendo vozes, cordas, sopro, couro e cadência para decupar a obra de um artista a partir de seus cacos. Nelson Cavaquinho foi um bailarino do meio-fio.
O resultado desta simbiose é um dos melhores CDs deste ano.
No repertório de “O dono das calçadas”, 15 composições capazes de flagrar o universo de NC. Entre elas:
Clássicos da melhor música brasileira, caso de “Meu pecado” e “A flor e o espinho”.
Uma inédita: “Velho amigo” _ música que o mítico compositor, ainda em vida, concedeu a Paulo César Feital o prazer da parceria.
A obscura “Nair”, pérola garimpada por Afonso Machado (bandolinista e arranjador do Galo Preto) em pesquisa sobre a obra do autor de “Rugas”.
Cidadão da “galáxia dos imortais” _ conforme assinala a atriz Bete Mendes num texto no encarte do CD, Nelson Cavaquinho ganha esta bela homenagem no aniversário de seus 90 anos de nascimento. Um poeta eternizado por seu pranto. |