Serão muitas as noites de gala do galante Galo Preto. Galo de rinha. Galo grisalho que continua cantando de teimoso. É um espanto que esse galo valente ainda cante, com tanta raposa entrando e saindo feito cometa do galinheiro, com tipos como Mamaluf e Pittanic afanando as galinhas que, em última análise, são a razão de ser do canto do Galo. Eu lembro a primeira vez que o Galo cantou, às quatro da manhã: Céu azulou na linha do mar. O Galo estufou o peito e mandou ver: eu sou o Rei do Terreiro. O Galo, hoje maduro e ainda mais brilhante, viu muito pinto safado tentando se dar bem, feliz com o lixo. Mostrando sabedoria de coruja, o Galo deixou pra lá sabia que o primeiro milho era dos bobos. Viu muito peru de fora se manifestar, muito papagaio fantasiado de canário, muita ave de rapina, muito pavão enfatuado... Viu tanto bicho sonso no pedaço, que aprendeu: pato muito quieto em lagoa tá a fim do brioco da gansa.
Esse é o Galo que nós amamos: encrenqueiro, moleque, bom de bico, e com esporão afiado. Galo carioca, tinhoso, de pés fincados no subúrbio feito um galo de catavento, rindo das aves de arribação.
Canta, Galo Preto, porque, por mais densa que seja a noite, sempre há um respingo de aurora quando te ouvimos, e quando te ouvimos, rimos de felicidade, e “quem nos vê sorrir não há de nos ver chorar”.
Aldir Blanc
nov/2000 |
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BORORÓ & GALO PRETO
(Museu de Arte Moderna)
Os que não
foram no MAM vão continuar vociferando que o choro vive de
nomes do passado e que Bororó é apenas o autor de “Da Cor
do Pecado” e “Curare”.
Os que compreendem que o processo artístico é dinâmico
e não está sujeito a “acidentes” tão proclamados quanto difíceis
de defender numa argumentação viram desfilar fértil de composições
de um ilustre pequeno burguês carioca na flor e lucidez de
seus 81 anos perfeitamente entrosados a um grupo de músicos
dos quais muito se pode esperar.
Roberto Moura
"O Pasquim" - 1977 |
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Com
o velho contínuo que diariamente bate o ponto no Ministério
da Indústria e do Comércio, ele comparece ao seu mais novo
local de trabalho antes da hora e de todo mundo.
Sandália, roupa surrada, pernas esticadas numa poltrona,
cervejinha gelada do lado, ele nem lembra o príncipe que dias
antes desfilou pela avenida, abrindo a passagem da sua Mangueira.
Quando vai chegando nove e meia da noite, pede licença
e se manda para o camarim com um andar arrastado de quem não
tem pressa. E,
quando começa a atividade desse novo trabalho, transfigura-se.
Fica ágil, conta piadas, mostra com a maior segurança
várias músicas gravadas em seus Lps, presta homenagem a Silas
de Oliveira – “o maior de todos os compositores de escola
de samba” - e deixa a impressão de que, aos 63 anos, está mais em forma do que nunca.
O
pessoal do Galo Preto dá o pontapé inicial, mostra dois chorinhos,
só depois é que Cartola entra.
Na primeira parte, canta músicas menos conhecidas, entremeadas
com piadas e casos do morro. Com esse espírito, fazendo a platéia ficar muito à vontade,
Cartola leva o show “Acontece” como quer, como se fosse um
tarimbado homem de palco.
Adeus,
Mangueira, a abertura da segunda parte é de profundo bom gosto:
o conjunto Galo Preto, de excelente nível, executa duas músicas
de Jacó do Bandolim.
Uma valsa, a última composta por Jacó, e um choro inédito.
Em meio a esse clima, Cartola retorna.
Senta-se na cadeira colocada junto à mesa que está
no centro do palco e desfila uma série de canções, as suas
mais conhecidas, e prossegue contando casos do morro. O
fim do espetáculo é uma festa.
As pessoas de pé exigindo mais.
Cartola emocionado, bisa.
Jose
Trajano
Cartola e Galo Preto – Isto é 1978 |
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Escola de Chorões

Se Jacó tem presença simbólica na parte de execução
deste LP – a esta comparecem concretamente, entre outros convidados.
Abel Ferreira,
Copinha, e Claudionor Cruz.
Esse comparecimento, mais do que mera homenagem ou
dispensável apadrinhamento traduz uma perfeita identidade
do modo de tocar, evidenciada com largueza no entrosamento
em que se igualam ao longo de varias faixas (escute-se, por
exemplo, o diálogo de flautas entre o venerável Copinha e
o jovem José Maria Braga, na faixa Murmurando) os velhos mestres
e seus aplicados seguidores.
Essa aproximação tão bem sucedida é mais do explicável:
o Galo Preto praticamente desde a sua formação toca com os
velhos chorões. O
próprio nome do grupo é referencia a um ente que Claudionor
Cruz (com quem o conjunto já se apresentou em shows, inclusive
na série Seis e Meia pioneira, a do Teatro João Caetano) afirma
baixar inesperadamente nos ensaios de seu regional.
Alguns dos músicos que agora fazem estréia em disco
próprio formam costumeiramente no conjunto de Abel Ferreira,
do qual o sete cordas Luiz Otávio Braga tem sido figura de
destaque. E foi
ao lado de Bororó (autor de peças chorísticas já clássicas)
que o grupo conheceu o seu primeiro êxito em espetáculos em
palcos teatrais, sucesso que repetiu em plano muito mais alto
ao acompanhar Cartola em recente show no Teatro da Galeria.
Com tal currículo aprimorando o seu talento natural,
foi possível ao Galo Preto fazer um disco maduro logo na primeira
tentativa. No
LP, o desempenho dos músicos está perfeitamente à altura do
repertório de exceção escolhido, no qual se inclui uma maravilhosa
peça inédita de Anacleto de Medeiros.
Moacyr
Andrade
Jornal do Brasil -
02/06/1978 |
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Veja o que diz o crítico Luiz Carlos de Assis, sobre o disco, para a Revista Amiga: “Entre os grupos de choro não tenham dúvidas de que o LP do Galo Preto sempre merece ser escutado, guardado e analisado com bastante carinho. Eles sabem traduzir com eficácia as tendências do gênero através da sua evolução. Um exemplo: a faixa 1 do lado A, onde Paulinho da Viola assina com Cristóvão Bastos a maravilha do Meu Tempo de Garoto, mostrando uma concepção mais moderna do gênero.
Luiz Carlos de Assis
Revista Amiga |
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